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Debret e o carnaval: conheça a história da pintura que virou símbolo da folia de rua no Brasil colonial

Aquarela 'Dia de Entrudo (Carnaval), de Jean Baptiste Debret, feita em 1823 HORST MERKEL/Acervo dos Museus Castro Maya / Ibram – MinC, Rio de Janeiro Nada de ...

Debret e o carnaval: conheça a história da pintura que virou símbolo da folia de rua no Brasil colonial
Debret e o carnaval: conheça a história da pintura que virou símbolo da folia de rua no Brasil colonial (Foto: Reprodução)

Aquarela 'Dia de Entrudo (Carnaval), de Jean Baptiste Debret, feita em 1823 HORST MERKEL/Acervo dos Museus Castro Maya / Ibram – MinC, Rio de Janeiro Nada de cortejos, baterias, carros alegóricos, trios elétricos, dançarinos de frevo, purpurina, pierrots, bate-bola e colombinas: a pintura que virou exemplo de representação iconográfica do carnaval de rua antigo no Brasil mostra uma cena totalmente diferente da ideia atual da folia. A obra mostra uma mulher negra com uma cesta na cabeça, sendo suja de polvilho por um jovem também negro e observada por outros personagens em uma via do Rio colonial. Trata-se da aquarela "Um dia de entrudo (carnaval)", pintada em 1823 pelo francês Jean-Baptiste Debret — que esteve no Brasil entre 1816 e 1831. A aquarela é reproduzida constantemente em livros escolares e de história como exemplo da primeira forma do carnaval do Brasil: o entrudo, conjunto de brincadeiras trazido pelos portugueses, que têm raízes em tradições medievais europeias. O desenho aquarelado foi feito no Rio, levado para a França, transformado numa matriz de litografia e publicada no livro “Viagem Histórica e Pitoresca ao Brasil”, de Debret, que obteve notoriedade na Europa em um momento em que crescia o interesse pela vida nas Américas. A imagem posteriormente voltou para o Brasil e atualmente é mantida no Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa - bairro do Rio que tem íntima relação com o carnaval, recebendo blocos como o Céu na Terra, Me Enterra na Quarta e Carmelitas. A pintura atualmente não está em exposição e é mantida em conservação sem luz para evitar sua degradação. Historiadores não costumam cravar que a aquarela é a primeira pintura que retratou o carnaval de rua - mas ela é comumente descrita como o primeiro grande registro iconográfico que mostrou cenas do tipo. Entre os fatores que costumam justificar o destaque dado a obra está o fato dela ter sido feita por um artista que obteve atenção ao retornar para a Europa com um livro com a imagem entre outras. O entrudo não tinha foco principal na música, fantasias ou dança que caracterizariam o carnaval do Brasil nos séculos seguintes: no jogo, os participantes (ou vítimas) tentavam molhar ou sujar os outros de várias formas, principalmente com pequenas bolinhas recheadas de líquidos, os limões de cheiro. Seringas e baldes também eram usados e, além de farinhas, tintas, comidas e outras sujeiras. O entrudo chegou ao Brasil como jogo doméstico entre familiares de colonizadores - ele já tinha sido tema da obra de outro pintor, o britânico Augustus Earle, em 1822. Com o tempo, e como mostra a tela de Debret, a brincadeira foi se espalhando . Em um Brasil ainda profundamente marcado pela escravidão — abolida apenas em 1888 — essa forma de carnaval passou com o tempo a envolver também os escravizados, que em geral brincavam entre eles ou servindo a senhores brancos em tarefas como a preparação e venda de limões de cheiro. A partir da segunda metade do século XIX, a prática do entrudo passou a ser criticada por jornais e governantes que o associavam à violência e desordem e tentaram, muitas vezes sem sucesso, proibi-la nas ruas. O entrudo só passa a perder força no carnaval brasileiro a partir da década de 1910. Na obra de Debret, é possível ver além da vendedora atacada com polvilho, uma outra com um tabuleiro de limões de cheiro. No fundo, também é possível ver um homem negro esguichando água com uma seringa. Debret descreve a cena que pintou da seguinte forma: "A cena se passa à porta de uma venda (...) A negra sacrifica tudo ao equilíbrio de seu cesto (...) enquanto o moleque, de seringa de lata na mão, joga um jato de água que a inunda”, escreve o pintor. "Sentada à porta da venda, uma negra mais velha ainda, vendedora de limões e de polvilho, já enlambuzada (...) segura o dinheiro dos limões pagos adiantado, que um negrinho (...) escolhe... No fundo do quadro podem-se observar famílias tomadas da loucura do momento (...) e um pacífico cidadão escondido atrás de seu guarda-chuva aberto e que circula por entre restos de limões de cera". Em seu livro, Debret faz várias considerações sobre o carnaval do Brasil, e o compara com o europeu: "O carnaval no Rio e em todas as províncias do Brasil não lembra, em geral, nem os bailes nem os cordões barulhentos de mascarados que, na Europa, comparecem a pé ou de carro nas ruas mais frequentadas, nem as corridas de cavalos xucros, tão comuns na Itália". "Os únicos preparativos do carnaval brasileiro consistem na fabricação dos limões-de-cheiro, atividade que ocupa toda a família do pequeno capitalista, da viúva pobre, da negra livre (...) e finalmente das negras das casas ricas", acrescenta. Da corte napoleônica ao registro do cotidiano brasileiro Mercado da rua do Valongo, litografia a partir de aquarela de Jean-Baptiste Debret, 1835 Biblioteca Pública Nova York Antes de vir ao Brasil, Jean-Baptiste Debret tinha se estabelecido na França como um dos pintores que registravam em seu trabalho cenas da corte napoleônica. Quando Napoleão sai do poder, em 1815, ele e outros colegas passam a pintar outros temas e precisam se reinventar na profissão. O pintor é convidado a vir ao Brasil por Joaquim Lebreton como parte da Missão Artística Francesa, um projeto idealizado e organizado a pedido da Corte Portuguesa. Um dos objetivos era criar uma escola de arte no Brasil. No Rio, Debret se instala no bairro do Catumbi e volta ao ofício de pintar a realeza, retratando a corte de Dom João VI e fazendo a cenografia de palácios além de alegorias. A escola de arte, nesse momento, acaba não virando uma realidade. “A coroação de Dom João VI, a chegada da primeira mulher de Dom Pedro — tudo isso ele retrata em tela. Mas, como era comum aos pintores da época, Debret não se dedicava exclusivamente à pintura. Ele também é encarregado de fazer a decoração de algumas festas públicas e conceber monumentos de arquitetura efêmera”, explica a curadora Anna Paola Pacheco Baptista, atualmente no Museu Nacional de Belas Artes e que já trabalhou com obras de Debret. Anna explica que o francês, durante sua estadia no Rio, passa a assumir informalmente outros papéis: o de historiador e antropólogo. Ele passa a observar cenas do cotidiano, como a do dia de entrudo, fazer rascunhos e finalizar posteriormente as aquarelas - onde as cenas se desenrolam por 2 e, às vezes, 3 ou 4 planos. Autorretrato de Debret Domínio Público O livro que Debret publica na França tem um volume dedicado à observação dos indígenas, outro sobre cotidiano e trabalho (onde entram relatos sobre o cotidiano dos escravizados) e um terceiro sobre o homem branco e as famílias. Em pinturas como "Castigo do Açoite", Debret foi além das cenas de luxo que pintava no início da carreira e mostrou, por exemplo, maus tratos e torturas aos quais eram submetidos os escravizados. Debret também produziu uma aquarela famosa intitulada geralmente “Mercado da rua do Valongo”, em que representa o mercado de escravizados na Rua do Valongo, no Rio de Janeiro, com africanos recém‑chegados expostos à venda. Essa imagem é hoje uma das principais referências visuais para o tráfico negreiro na região do Valongo e costuma ser reproduzida em estudos sobre o cais e o mercado de Pretos Novos. O cenário faz parte do sítio arqueológico do Cais do Valongo, na Zona Portuária do Rio, inscrito como Patrimônio Mundial da Unesco em 2017. Anna Paola explica que além das 200 imagens, os textos de Debret também têm imensa importância histórica. “Muita gente não tem ideia de que o ‘Viagem Pitoresca’ é um livro com texto e imagem. O texto e a imagem para o Debret são coisas inseparáveis. Ele quis fazer uma crônica completa do Brasil”, explica. Carnaval de rua do Rio: curiosidades da história dos blocos e imagens clássicas da folia Os primeiros cortejos e manifestações musicais Obra 'Marimba. Passeio de domingo à tarde', de Jean-Baptiste Debret Acervo dos Museus Castro Maya / Ibram – MinC, Rio de Janeiro Ainda sobre o carnaval, apesar de dar a entender que o entrudo era amplamente a atividade que dominava as ruas, Debret também descreveu ter visto manifestações que iriam formatar outros tipos de folia nas décadas e séculos seguintes. Ele conta que viu grupos de pessoas negras mascarados e fantasiados de "velhos europeus". Esses foliões imitavam com habilidade os gestos da elite, cumprimentando as pessoas nas sacadas enquanto desfilavam. Esses grupos eram acompanhados por músicos também negros, que desfilavam igualmente fantasiados, fornecendo o acompanhamento sonoro para a performance. Debret destaca também o papel dos barbeiros, que na época eram majoritariamente negros e possuíam diversas habilidades. Ele menciona que esses barbeiros formavam bandas completas de músicos itinerantes que tocavam rabeca, clarineta e outros instrumentos em bailes, festas de confrarias e procissões, executando valsas e contradanças francesas adaptadas ao seu modo. Pintor francês Jean-Baptiste Debret retratou o entrudo nas ruas do Rio no início do século 19 BBC

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